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Alimentação saudável, nutrição, suplementos.

Adoçantes não parecem ser a solução para a obesidade

Refrigerantes e sucos industrializados são bebidas altamente processadas, e via de regra contêm altas doses de açúcares. Uma lata de 350mL dessas bebidas já atinge ou supera a quantidade máxima de açúcar adicionado recomendada para um adulto em um dia inteiro. Uma resposta da indústria alimentícia são as bebidas adoçadas artificialmente, que praticamente não contêm calorias, e assim deveriam ajudar a evitar a obesidade.

Pesquisadores do Brasil, Reino Unido e Estados Unidos publicaram nesta terça-feira, na revista científica PLoS Medicine, um artigo analisando a efetividade das bebidas adoçadas artificialmente no combate à obesidade. Como os próprios autores resumem,

… a evidência disponível não dá suporte direto ao papel das bebidas adoçadas artificialmente na indução do ganho de peso ou em anormalidades metabólicas, mas também não demonstra consistentemente que essas bebidas sejam efetivas na perda de peso ou na prevenção de anormalidades metabólicas. A evidência do impacto dessas bebidas na saúde das crianças é ainda mais limitada e inconclusiva do que nos adultos.

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Interação medicamentosa de chá de hibisco com varfarina

Uma leitora me perguntou:

Será que eu posso toma chá de hibisco, pois tomo marevan 5mg?

Marevan é uma marca de varfarina, um anticoagulante notório por suas interações medicamentosas. Além de ser um dos medicamentos com mais interações medicamentosas, a varfarina é um dos medicamentos cuja segurança e eficácia são mais afetados por essas interações. E mais, essas interações medicamentosas envolvem não apenas outros medicamentos, mas também alimentos e bebidas.

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Qual é a novidade sobre carne processada e câncer?

Semana passada a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), que é o órgão da Organização Mundial da Saúde dedicado ao câncer, publicou uma nota à imprensa sobre o papel da carne processada e da carne vermelha na causa do câncer, além de uma nota na revista científica The Lancet Oncology.

Quatro embutidos fatiados

© Kent Wang (CC BY-SA 2.0)

Essa nota do IARC repercutiu nos meios de comunicação, e uma das coisas que mais se repete é que a carne processada agora está no mesmo grupo que o cigarro. Não, a carne processada não causa câncer com a mesma potência do cigarro! A novidade é que agora o IARC tem certeza de que tanto a carne processada quanto o cigarro são algumas das causas de câncer.

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Sal de menos parece fazer mal à saúde

Todo o mundo sabe que, quanto maior o consumo de sal, maior a pressão arterial; e que, quanto maior a pressão arterial, maior o risco de doenças cardiovasculares como o infarto e o derrame, que são algumas das principais causas de morte e incapacidade do Brasil e no mundo. Além disso, está claro que o controle da pressão arterial com medicamentos diminui o risco de doenças cardiovasculares e das mortes causadas por elas. No entanto, apesar da diminuição do consumo de sal melhorar a pressão arterial, nenhum estudo até hoje mostrou diretamente que a diminuição do consumo de sal previne as doenças cardiovasculares (cardíacas ou do resto do aparelho circulatório).

Essa é uma das questões abordadas pelo estudo Epidemiológico Prospectivo Urbano e Rural (“PURE”, do inglês Prospective Urban and Rural Epidemiologic). Iniciado em 2002, Esse estudo observou mais de cem mil pessoas, em várias dezenas de comunidades, tanto na área urbana quanto na rural, em países de todos os continentes e com todos os níveis de renda, inclusive o Brasil. O artigo sobre a relação entre o consumo de sal e as doenças cardiovasculares, publicado no New England Journal of Medicine, foi tão surpreendente que eu demorei um ano para trazer a novidade a vocês, para ter certeza de que eu tinha mesmo entendido a mensagem.

Três gráficos mostrando uma relação em jota

Relação entre o sódio e as chances da pessoa (A) morrer por qualquer causa ou sofrer um evento cardiovascular maior (desenvolver infarto, derrame ou insuficiência cardíaca, ou morrer por qualquer causa cardiovascular); (B) morrer por qualquer causa; e (C) sofrer um evento cardiovascular maior. Cada 1 grama de sódio excretado equivale a 2,5 gramas de sal consumidos. Fonte: New England Journal of Medicine 2014;371:612-623.

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Espírito Santo proíbe saleiro na mesa de bares e restaurantes

Nesta semana começa a valer a Lei Estadual nº 10.369, de 22 de maio de 2015, que proíbe bares, restaurantes e similares de expor saleiros e sachês de sal sobre suas mesas e balcões. Algumas pessoas estão revoltadas com a Lei, e falam em despropósito, paternalismo e até ditadura. Eu mesmo fui surpreendido, e só fiquei sabendo da Lei um mês depois dela ter sido publicada. Mesmo assim, não tenho uma visão tão negativa sobre ela.

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Os 10 maiores fatores de risco para a nossa saúde

No dia 31 de maio comemoramos o Dia Mundial sem Tabaco. E temos muito o que comemorar! A proporção de fumantes no Brasil diminui ano após ano, e o número de ex-fumantes já é maior do que o número de fumantes. Mesmo assim, o tabagismo ainda é o 5º fator de risco que mais prejudica a saúde do brasileiro. E quais os quatro fatores de risco mais importantes do que o tabagismo?

A lista dos os 10 maiores fatores de risco para a nossa saúde, que eu divulguei cinco anos atrás, foi atualizada em dezembro de 2012. Esse novo estudo de Carga Global de Doença foi um trabalho colossal, reunindo toda a informação disponível sobre 67 fatores de risco modificáveis e 291 doenças e outros agravos (por exemplo, agressões e acidentes), em todos os países do mundo.

Não apenas a nossa situação de saúde mudou muito, mas também os pesquisadores conseguiram acesso a mais dados, e a melhores técnicas de análise.

Este artigo substitui outro, publicado na terça-feira, 2 de junho de 2015.

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Como cortar o sal sem sofrimento

Um tempo atrás eu estava contando que a redução do sal dos alimentos industrializados consumidos por toda a população diminuiria o número de derrames (AVC) e infartos mais ou menos tanto quanto o tratamento medicamentoso das pessoas consideradas hipertensas. Melhor ainda, o governo federal fechou um acordo com a indústria alimentícia para reduzir pela metade o sal dos alimentos industrializados ao longo de 10 anos.

O problema, eu dizia, é que a maioria do sal consumido pelos brasileiros não vem de alimentos industrializados, mas sim de sal e temperos prontos acrescentados à comida feita em casa, seja na panela, seja no prato. Quem vai ao médico costuma ouvir que é necessário tirar o sal da comida. Mas quem é que consegue mesmo fazer isso?

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A saúde dos brasileiros está melhorando ano após ano

De vez em quando ouço alguém reclamar que as pessoas estão cada vez mais doentes. Algumas pessoas falam até mesmo em uma epidemia de doenças não transmissíveis! Eu até concordo que as pessoas saudáveis (no sentido em que eu e os leitores usamos a palavra) têm sido transformadas em pacientes, na medida em que a medicina se preocupa com as causas das doenças, as causas das causas, e por aí em diante.

Mas, por outro lado, a expectativa de vida está aumentando década após década. Isso não pode ser tão ruim assim! Mesmo as pessoas que se sentem efetivamente doentes não reclamam de viver alguns anos a mais.

E as pessoas estão permanecendo ativas e sadias por cada vez mais tempo. Algumas décadas atrás uma mulher com 50 anos de idade seria considerada velha, mas hoje uma mulher dessa idade nem ao menos aceita ser chamada de “senhora”.

Taxa de mortalidade por cada doença crônica não transmissível, ajustada por idade, separadamente para homens e mulheres.

Mortalidade por doenças não transmissíveis ajustada por idade (Brasil, 1991-2010)

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Notas rápidas 31/08/2012

Algumas notícias enquanto não trago um artigo mais aprofundado:

RBMFC traz artigo sobre mudanças na PNAB

Ano passado eu tinha apresentado uma palestra sobre as mudanças que o Ministério da Saúde vinha fazendo na Política Nacional de Atenção Básica (PNAB). Na época publiquei um comentário sobre as novidades da PNAB aqui no Doutor Leonardo, e também fui convidado para adaptar o material da apresentação para a Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (RBMFC). Demorou um pouco, mas finalmente o artigo foi publicado, na seção de debate da RBMFC. O material não é mais tão atual assim, mas ainda é uma leitura muito interessante para quem trabalha na Saúde da Família.

Indústria promete reduzir sódio em margarina e cereal

Individualmente, a redução do sal da comida tem um efeito modesto no controle da pressão arterial. Mas, em termos de saúde coletiva, reduzir o consumo médio de sal por pessoa é capaz de reduzir o número de derrames em maior proporção do que o tratamento medicamentoso de todos os hipertensos.

Eu já tinha divulgado que o Ministério da Saúde tinha fechado um acordo com a indústria alimentícia para a redução do sal e do açúcar em seus produtos. Nesta semana a Folha de São Paulo publicou uma matéria sobre o andamento dessa redução:

As reduções propostas, escalonadas para 2013 e 2015, variam de 1,3% ao ano (para temperos à base de alho e cebola para arroz) até 19% ao ano (margarinas vegetais).

Comissão do Senado aprova vinculação de receita da União para a saúde

Atualmente o governo federal destina para a saúde apenas 4% do seu orçamento total, enquanto os estados são obrigados pela Emenda Constitucional nº 29 a destinar 12%, e os municípios, 15%. Há pouco tempo divulguei um projeto de lei de iniciativa popular para obrigar o governo federal a reservar pelo menos 10% do orçamento para a saúde. Enquanto as entidades médicas coletam assinaturas, a Câmara dos Deputados recebeu mais dois projetos de lei semelhantes, e agora descobri o projeto de Lei do Senado nº 156, de 2007:

Art. 2º A União aplicará, anualmente, em ações e serviços públicos de saúde, conforme definidos nesta Lei Complementar, o montante mínimo correspondente a dezoito por cento de sua receita corrente líquida, calculada nos termos do art. 2º da Lei Complementar nº 101, de 4 de maio de 2000.

O projeto acabou de ser aprovado pela Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, e segue para a Comissão de Assuntos Socias, de onde (se aprovada) vai para votão na Plenária do Senado.

Será que dessa vez vai?

Mães inteligentes amamentam os seus filhos

Há mais de 80 anos se sabe que os bebês que recebem aleitamento materno se tornam crianças mais inteligentes. Mas as mães que amamentam seus filhos são mais inteligentes, em média, do que as não amamentam, e a inteligência é em grande parte hereditária. Será, então, que o aleitamento materno aumenta a inteligência das crianças?

Mulher amamentando seu filho.

Pesquisadores escoceses fizeram um estudo completo sobre o assunto. Primeiro, cruzaram informações sobre as mães com informações sobre as crianças; a partir daí, fizeram tanto uma análise hierarquizada quanto uma comparação entre irmãos amamentados e não amamentados. Por fim analisaram em conjunto as pesquisas anteriores sobre o assunto e compararam o resultado dessa análise com os próprios resultados.

O artigo, publicado British Medical Journal, concluiu que o aparente efeito benéfico do aleitamento materno sobre a inteligência infantil é melhor atribuído ao ambiente da criança e, principalmente, à inteligência da mãe.

Os estudos prévios mostravam um aparente benefício da amamentação para a inteligência das crianças. O resultado variava consideravelmente de um estudo para o outro, com os estudos mais refinados encontrando menos associação entre aleitamento materno e inteligência infantil. Por fim, houve evidência de viés de publicação, ou seja, parece que os estudos que encontraram a associação tinham maiores chances de ser publicados.

Essa pesquisa mais recente não invalida a importância do aleitamento materno para o desenvolvimento dos bebês. Os próprios autores enfatizam que todas as pesquisas revisadas, além da deles, foram realizadas em países desenvolvidos, de forma que as conclusões não podem ser automaticamente estendidas aos países menos desenvolvidos. Além disso, o aleitamento materno tem vários outros benefícios (inclusive para as mães!), que não foram abordados no artigo.

De qualquer forma, ficou provado que amamentar os filhos é um sinal de inteligência.