Brasil poderia ter acabado com a dengue na década de 90

Li recentemente na revista CartaCapital (nº 604, 14 de julho, p. 17) uma máteria sobre a preocupação com o número de casos de dengue de 2010, bem como com uma possível piora no ano que vem. Mas o que me chamou a atenção foi uma menção a uma entrevista com o ex-ministro Adib Jatene, que tinha sido publicada no número 578, 13 de janeiro de 2010. O Brasil tinha um plano de erradição do Aedes aegypti, mas não o colocou em prática por falta de dinheiro.

Fotografia de Adib Jatene

Divulgação

O presidente (Fernando Henrique) aprovou o plano, que usaria dinheiro da CPMF. Custaria, em três anos, cerca de 4 bilhões de reais. Mas não foi feito. Aprovada a CPMF, a área econômica retirou os recursos de outras fontes e, no fim das contas, o Ministério da Saúde passou a ter menos dinheiro que antes da aprovação do tributo.

Isso me lembra da malária. Na década de 40, a doença era tão comum que acontecia um caso para cada 10 habitantes por ano, em qualquer lugar do país. Mas cerca de 60 anos atrás o país se empenhou na erradicação do mosquito, e hoje em dia a doença só é transmitida na Amazônia. (Onde, convenhamos, não há inseticida que dê jeito.) O inseticida usado no combate ao mosquito da malária foi o DDT, daí o nome dedetização, apesar de hoje em dia os mosquitos terem adquirido resistência à substância. (Leia também: Eleições 2010: como usar seu voto para prevenir a dengue.)

Se nós fomos capazes de varrer um mosquito da maior parte do território nacional mais de meio século atrás, imagine então como seria o sucesso de um empreendimento desses hoje em dia. Mas não. Nós somos um país capaz de gastar dezenas de bilhões de reais para salvar um banco, mas não alguns bilhões para erradicar uma doença. Mesmo que nos anos seguintes a conta fique ainda maior, levando em consideração o trabalho de formiguinha dos agentes de combate a endemias (e até dos agentes comunitários de saúde) e a assistência médico-hospitalar aos casos de dengue. (Leia também: Eleições 2010: Lula defende mais dinheiro para a saúde.)

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