Filhos de lésbicas têm desenvolvimento psicológico normal

Agora que a Argentina reconheceu a união entre pessoas do mesmo sexo, muitas pessoas estão questionando quando o Brasil seguirá o exemplo. No meio tempo, os casais homossexuais daqui vão colecionando outros direitos, como o de incluir o companheiro como dependente no plano de saúde e no Imposto de Renda. Além disso, os homossexuais também podem adotar crianças, porque a lei brasileira é explícita quanto à irrelevância do estado civil (ser ou não casado), e a Constituição Federal proíbe a discriminação da pessoa em função de sua orientação sexual.

As pesquisadoras Gartrell e Bos destacam que a homossexualidade deixou de ser considerada doença há mais de 30 anos, mas ainda existe quem questione a legitimidade da criação de um filho (adotivo ou biológico) num lar homossexual. Já foram realizados vários estudos, que não encontraram influência alguma da orientação sexual dos pais no ajustamento psicológico dos filhos. A maioria desses estudos avaliou as famílias pontualmente, sem acompanhá-las ao longo do tempo. Isso traz algumas limitações, e é para responder a elas que as pesquisadoras começaram a acompanhar, em meados da década de 80, lésbicas grávidas ou planejando gravidez por inseminação artificial. O estudo científico publicado recentemente no periódico Pediatrics relata que hoje em dias esses filhos têm 16 a 18 anos de idade, e seu ajustamento psicológico é ainda melhor que a média.

Após análise estatística, os adolescentes filhos de lésbicas apresentaram melhores níveis de competência social, escolar e total. Além disso, eles tinham menos comportamento agressivo, menos comportamento problemático externalizante (sem controle dos impulsos), menos problemas de contato social, e menos problemas com violação de regras. De acordo com as pesquisadoras, o resultado poderia ser explicado em parte pela forma como os filhos foram criados:

Durante a gravidez, as futuras mães tinham aulas e formavam grupos de suporte para aprender a criar filhos. Elas se envolveram ativamente na educação de seus filhos e aspiravam a manter-se próximas a eles […]. […] vários estudos mostraram que ter uma relação satisfatória com o pai ou mãe está associado a ter um ajustamento mais favorável.

Os níveis menores de comportamento problemático externalizante entre os adolescentes [do estudo] pode ser explicado pelos estilos disciplinares usados em lares com mães lésbicas. A mães [do estudo] relataram impor limites verbalmente com mais frequência às suas crianças. Outros estudos encontraram que mães lésbicas usam menos punições corporais e menos imposição de poder que pais heterossexuais. Demonstrou-se que crescer em lares com menos imposição de poder e mais envolvimento dos pais e mães está associado a um ajustamento psicológico mais saudável.

Em suma, o melhor ajustamento psicológico dos adolescentes é provavelmente fruto do estilo de sua educação, e não da orientação sexual de suas mães. É justamente esse o embasamento científico da famosa lei da palmada. (Leia mais: Bater não educa.)

O resultado é consistente com os estudos anteriores, mesmo usando uma metodologia diferente, e portanto sem as limitações de até então. Mas as pesquisadoras Gartrell e Bos admitem que as famílias acompanhadas podem não ser representativas da totalidade das lésbicas dos EUA. O ideal seria escolher as famílias por sorteio, entre uma lista completa das lésbicas daquele país; mas na década de 80 isso teria sido ainda mais inviável do que hoje em dia.

De qualquer forma, essa é a evidência mais sólida que temos hoje em dia sobre o desenvolvimento psicológico de filhos concebidos por casais de lésbicas. O recado final das pesquisadoras é que o fato de uma criança ou adolescente ser filho de lésbicas não deve ser motivo de preocupação. Esse tipo de informação é muito importante para qualquer pessoa que lide com o filho dos outros no dia-a-dia, mas não faria mal algum se todo o mundo ficasse sabendo.

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