A história da tuberculose: do contágio aos sintomas e à cura

Um amigo me pediu para escrever um artigo específico sobre tuberculose: os tipos, os sintomas, quando procurar o médico, tratamento, estatísticas… Na verdade, ele já sabia a maior parte do que me pediu para descrever, mas ele estava preocupado com muita desinformação por parte dos médicos e preconceito por parte da população, apesar de existir cura na maioria dos casos. O assunto ficou ainda mais relevante depois que descobri que os agentes comunitários de saúde têm mais chance que seus familiares de serem infectados pela tuberculose. Não dá para escrever tudo o que ele pediu, então vou focar na história natural da doença: como se pega, como se adoece, e como se cura.

A tuberculose é causada pelo bacilo de Koch, uma bactéria cujo nome científico é Mycobacterium tuberculosis. A transmissão dessa bactéria acontece principalmente dentro das casas, ou em lugares fechados como os presídios. Quando uma pessoa contagiosa fala ou tosse, ela solta no ar gotas de saliva contendo o bacilo de Koch. As gotas visíveis são o menor problema; as gotas microscópicas têm mais facilidade para ficar suspensas no ar, e entrar no pulmão driblando os pelos nasais e outras defesas do aparelho respiratório.

Quando o bacilo atinge o pulmão da pessoa, ele pode se espalhar para qualquer parte do corpo, através da circulação sanguínea. Normalmente o sistema imunológico da pessoa controla a infecção, e a pessoa nada sente. Em até dois meses já é possível detectar a infecção através de um teste na pele (com o PPD), mas a doença mesmo só começa depois disso.

Caso o sistema imunológico não consiga controlar completamente o Mycobacterium tuberculosis, em poucos meses a pessoa pode desenvolver a doença em praticamente qualquer parte do corpo, inclusive nos gânglios linfáticos e nas pleuras. Mas as formas graves da doença são a meningite tuberculosa, em que a pessoa tem sintomas semelhantes ao das outras meningites, e a tuberculose miliar, em que a tuberculose se espalha para todo o corpo. Essas também são as únicas formas de tuberculose evitadas pela vacina BCG, e por isso se tornaram quase exclusivas de pessoas com o sistema imunológico comprometido, como os portadores de Aids.

Recapitulando, a maioria das pessoas infectadas pela tuberculose nunca desenvolve a doença. Dentre as pessoas que adoecem, algumas adoecem em menos de 12 meses, como expliquei acima, mas a maioria adoece anos (às vezes, décadas) depois. A forma tardia da tuberculose acontece quase sempre no pulmão. A principal manifestação é tosse: seca, com catarro (produtiva), ou até com sangue. Assim como em outras formas da doença, a pessoa com tuberculose pulmonar pode apresentar um pouco de febre, principalmente à tardinha, e emagrecimento. Os sintomas vêm aos poucos, e podem ser muito discretos, ao ponto da pessoa nem perceber que está tossindo.

Qualquer tosse que dure duas semanas ou mais precisa de um diagnóstico médico. Existem várias outras causas possíveis, desde uma tosse alérgica (rinite alérgica) até uma insuficiência cardíaca (coração inchado), mas todas elas precisam ser confirmadas por um médico. (Leia também: Como identificar os sintomas da sinusite.)

Os sintomas melhoram com poucas semanas de tratamento, mas ele precisa ser mantido por 6 meses para garantir a cura. Se a pessoa parar o tratamento antes dos seis meses, as bactérias que sobram são as mais resistentes, e quando elas se multiplicarem a pessoa vai ter que fazer um novo tratamento, com medicamentos diferentes, e às vezes com efeitos colaterais piores.

A tuberculose pulmonar pode deixar cicatrizes na parte afetada dos pulmões. Se a pessoa precisar no futuro de uma radiografia de tórax, pode ser que o médico fique inseguro com relação àquela alteração: será que é uma cicatriz mesmo, ou será que é uma doença nova? O ideal nesse caso é comparar a radiografia nova com outras, antigas, daí a importância da pessoa sempre guardar seus exames. (A infecção pela tuberculose, mesmo sem desenvolver doença, também pode deixar uma outra alteração no pulmão.)

Não é preciso ter medo de quem está tratando de tuberculose, porque a pessoa deixa de ser contagiosa com 15 dias de tratamento. O risco de contágio está nas pessoas que ainda não sabem ter a doença. Ainda mais no Brasil, que é um dos 20 países do mundo mais afetados pela tuberculose. São cerca de 40 casos novos por ano para cada 100 mil pessoas. Até existem alguns fatores de risco, como a desnutrição, o uso nocivo de álcool e o tabagismo. (Leia também: 10 motivos para parar de fumar e As doenças causadas pelo tabagismo passivo.) Mas ninguém está imune, e na maioria dos casos que atendo o único fator de risco é conviver com alguém que não estava tratando da doença.

Só para não esquecer: Qualquer tosse que dure duas semanas ou mais precisa de um diagnóstico médico.

4 ideias sobre “A história da tuberculose: do contágio aos sintomas e à cura

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  2. Jairle Borges

    Parabéns pela postagem!
    Já fui infectada pela tuberculose, descobri uns 7 meses depois, pois os médicos que eu ia me davam o diagnóstico errado. Até que fui em a um pneumologista, fui diagnosticada corretamente, fiz o tratamento certinho, durante os seis meses. Não é fácil, na época eu tinha apenas 18 anos, e sofrer com o preconceito da sociedade é uma barra muito grande. Mas graças a Deus consegui vencer. Hoje ainda sinto dores, mas o médico me diz que é por causa de umas cicatrizes que a doença deixa no pulmão.
    Esse post serviu muito, me tirou algumas dúvidas. Parabéns!?

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    1. Josi carvalho

      Oi eu tambem tive essa doenca a uns 15 anos atras, ate hoje sinto dores ,principalmente depois de estar resfriada e carregar muito peso. E voce quando e que voce sente dores? Estou perguntando pois gostaria de saber experiencias de outras pessoas que ja tiveram tuberculose.

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  3. Rafael Ribeiro

    Eu já tive há 10 anos , estou 100% , não deixei de tomar o medicamento nem por um dia , cicatriz dói mais no frio , muito frio ! Sensação de dor , infecção , fisgadas , mas uma dor passageira .

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