Médicos de família fazem a diferença nos Estados Unidos

No meio acadêmico, a saúde dos Estados Unidos é motivo de piada. Mesmo para quem tem plano de saúde, o sistema é caro e os resultados são ruins, em comparação a outros países desenvolvidos. Eu poderia citar inúmeros artigos estudos científicos, mas em vez disso sugiro o filme Sicko: S.O.S. Saúde.

Vista panorâmica da cidade de Grand Junction, Colorado, nos EUA.

Mas existe uma cidade no estado do Colorado, chamada Grand Junction, que parece ser uma exceção à regra. Em junho de 2009, uma matéria (em inglês) publicada no jornal The New Yorker revelou ao país que aquela pequena cidade conseguiu a proeza de ter um dos sistemas de saúde mais baratos do país, e ainda assim ter um dos melhores conjuntos de indicadores de qualidade de atenção à saúde. Em agosto daquele ano, o presidente Barack Obama viajou à cidade para conhecer seu sistema de saúde.

Em setembro de 2010, a prestigiada revista científica The New England Journal of Medicine publicou (em inglês) o ponto de vista de dois médicos sobre a saúde da cidade:

O evento mais importante na história da atenção à saúde em Grand Junction foi a tomada da liderança por médicos de família. No início dos anos 70, um grupo de médicos de atenção primária à saúde [médicos de família, pediatras etc.] e especialistas fundaram um plano de saúde (Rocky Mountain Health Plans, ou simplesmente Rocky) e uma espécie de cooperativa (Mesa County Physicians Independent Practice Association, MCPIPA). Os médicos de família ganharam controle substancial dessas organizações, e promoveram uma cultura de incentivos para o controle e a transparência dos custos. Em 2006, Grand Junction tinha 85% mais médicos de família por habitante que a média nacional.

As duas organizações começaram a dividir seus riscos com os médicos. Se o orçamento anual estourar, todos os médicos deixam de receber 15% do pagamento. Além disso, os colegas sabem quem está pedindo muitos exames caros ou indicando muitos procedimentos caros, criando um constrangimento para quem se desviar muito da média. Mas a minha parte favorita é essa: Se isso não bastar para corrigir o problema, os médicos de atenção primária à saúde, para não deixar de receber seus 15% no final do ano, param de encaminhar pacientes para os médicos especialistas gastadores. O sistema foi um sucesso.

Outra característica do sistema de saúde de lá é que, quando um paciente é internado, ele fica sob os cuidados de um médico do hospital, mas o médico de família também recebe para visitar o paciente. Dessa forma, a continuidade do cuidado é garantida, as providências para a alta hospitalar são melhor discutidas, e as chances de reinternação caem.

Não vou traduzir todo o artigo aqui, até porque algumas questões não se aplicam ao Brasil ou não tem nada a ver com Saúde da Família. O que eu queria dividir com vocês é que, quando a coisa é bem feita, o resultado aparece.

Aqui no Brasil temos bons resultados com a Saúde da Família, como a redução da mortalidade infantil e das internações preveníveis (mais sobre isso quando eu terminar meu mestrado), e uma melhor efetividade da prescrição médica. Semana que vem falo sobre uma outra cidade, dessa vez brasileira, que de alguns anos para cá vem dando exemplo para os secretários municipais de saúde de todo o país: Cidade mineira dá exemplo para o resto do Brasil.

3 ideias sobre “Médicos de família fazem a diferença nos Estados Unidos

  1. camila ferreira

    aposto que lá o “genérico” de um agente comunitário será treinado, como técnico, coisa essa que aqui, so alguns poucos lugares receberam o devido treinamento nesses anos todos, e vao ganhar tdo o que o ministério de saude nos estados unidos repassar para eles.Diferente daqui que o repasse é 714 e ganhamos o mínimo, e eu ouvi do secretario de saude de minha cidade que a portaria é “uma besteira que o governo inventa pra arrumar mais problema pro municipio que não tem condições de repassar” bandidagem pura!!!

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    1. Leonardo Fontenelle Autor do post

      Camila, não tenho notícias de que os Estados Unidos tenham algum profissional de saúde análogo ao agente comunitário de saúde. (Sem querer, de forma alguma, entrar no mérito da remuneração do ACS em sua cidade.)

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