Clínico geral não é médico de família

Dia 5 de dezembro foi comemorado o Dia Nacional do Médico de Família e Comunidade, por isso resolvi tomar vergonha na cara e escrever um artigo que estou prometendo há muito tempo: qual é a diferença entre o clínico geral e o médico de família e comunidade.

Um médico realiza um exame de rotina em uma paciente em uma clínica médica.

A dúvida vem do fato de que o médico de família e comunidade está muito próximo daquilo que a maioria das pessoas considera um bom clínico geral. O médico de família e comunidade assume o cuidado integral da pessoa, mesmo quando ela tem alguma doença que também precisa dos cuidados de outros especialistas. O médico de família e comunidade pode trabalhar na estratégia Saúde da Família (PSF) do SUS, mas infelizmente a maioria dos médicos em equipes de Saúde da Família não têm especialização em Medicina de Família e Comunidade. Mas a MFC não é um cargo, é uma especialidade médica. Tenho colegas trabalhando em rede própria de planos de saúde, em consultórios particulares, em universidades e na gestão do SUS.

O termo clínico geral é usado, ao menos entre os médicos, para designar quem não tem especialidade alguma, ou seja, sabe trabalhar na Saúde da Família tanto quanto num pronto-socorro, numa sala de parto ou num CTI. Também é usado para médicos que se especializaram em outra área, por exemplo em Radiologia, e trabalham unidades de saúde ou pronto-socorros atendendo a adultos ou todas faixas etárias, substituindo alguém especializado em Medicina de Família e Comunidade ou em Clínica Médica.

A Clínica Médica, também chamada de Medicina Interna, é uma especialidade que serve de prerrequisito para uma série de subspecialidades, como a Cardiologia e a Gastroenterologia. Neurologia e Dermatologia são especialidades que ora são incluídas dentro da Clínica Médica, ora são consideradas especialidades de acesso direto. O médico que se especializa em Clínica Médica não tem mais contato com crianças, não tem mais treinamento em problemas do aparelho reprodutor, não atende problemas com problemas nos olhos, ouvidos, nariz e garganta, e sabe tão pouco de saúde mental quanto um recém-formado em Medicina.

Os especialistas em Clínica Médica são frequentemente chamados de clínicos gerais, e na maioria dos casos são se exige a especialidade para trabalhar em serviços de “Clínica Médica”, sejam eles ambulatoriais, de urgência e emergência, ou mesmo enfermarias. Por causa desse desprestígio, a especialização em Clínica Médica é geralmente considerada uma etapa preliminar para uma subspecialidade, como as já citadas Cardiologia e a Gastroenterologia. A própria especialização costuma reforçar essa tendência, privilegiando um revezamento entre serviços de cada subspecialidade, em vez de oferecer ao aprendiz serviços de Clínica Médica.

A especialização é importante para lidar com a diversidade do conhecimento científico gerado no último século, mas há várias décadas tem mostrado seus limites. Ficar pulando de médico em médico prejudica a qualidade da assistência à saúde da pessoa, como ilustrei no artigo Consultar especialistas pode atrasar o diagnóstico. O médico de família e comunidade é especializado em ser o primeiro médico consultado quando a pessoa precisa de um. Em vez de conhecer um pouco de todas as doenças, como faz um recém-formado, o médico de família e comunidade conhece a fundo a maioria das doenças mais frequentes, e sabe proceder a avaliação inicial das demais. O médico de família e comunidade é chamado de médico para toda a vida, por atender a todas as faixas etárias, sem aquele dilema de quando abandonar o pediatra ou quando consultar um geriatra.

Apesar da expansão vertiginosa da Saúde da Família nos últimos 15 anos, ainda é difícil encontrar médicos especializados em Medicina de Família e Comunidade. Em grande parte, isso se deve a uma cultura de aceitar que generalistas sirvam apenas para dar encaminhamentos, trocar receitas e pedir exames que a pessoa julgue serem de rotina. Enquanto as pessoas se contentarem em ser atendidas por qualquer médico, elas terão continuarão a ser atendidas de qualquer jeito.

A Wikipédia tem um artigo introdutório à Medicina de Família e Comunidade, e o vizinho Kanzler Melo Psicologia tem um artigo sobre a Saúde da Família, com um parágrafo sobre a atuação do médico. Sou suspeito para falar, mas recomendo a todos que leiam — e divulguem! — as duas páginas.

Atualização: Confira o seguinte artigo, que publiquei no dia seguinte a este: Ministério da Saúde cria incentivo para especialistas em Medicina de Família e Comunidade.

11 ideias sobre “Clínico geral não é médico de família

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  3. paulo costa

    O colega está redondamente enganado,gastro,cardio e outras especialidades clinicas não são subespecialidades e sim ESPECIALIADES MÉDICAS. Haja vista que possui suas sociedades.

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    1. Leonardo Fontenelle Autor do post

      De fato, não existe a expressão “subespecialidade” na taxonomia brasileira. O que existe são especialidades e áreas de concentração. Usei a expressáo subespecialidade no sentido de uma especialidade que está dentro de outra. Por exemplo, endocrinologia é uma subespecialidade da clínica médica.

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      1. Pablo C.Susi

        Muito bom o articulo que aclara muitas duvidas que existem na população por ignorância e incultura.VC relato de um jeito muito claro as diferencias que existem entre um Medico Geral, um medico de família e um clinico geral.

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  4. Sabrina I. Kolb

    Nossa! Você se perdeu muito ai! Uma hora clinico geral tem especialidade, outra hora não… Dai diz que de vez em quando outra especialidade exigem como requisito a especialidade de clinico geral e outras não. Depende do bom humor do lugar? E a quantidade de erro no texto mostra que escreveu, e nem parou pra reler o que digitou. Diz totalmente o contrário que outras fontes confiáveis. E Wikipédia deixou de ser referência faz tempo.

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    1. Leonardo Fontenelle Autor do post

      Prezada Sabrina,

      Se você voltar a ler este artigo outro dia, com mais calma, vai ver que eu não “me perdi muito”. Em especial, eu não disse que o mesmo clínico geral uma hora é especialista e outra, não. O que eu disse é que a expressão “clínico geral” é utilizada com mais de um significado. Isso ocorre corriqueiramente em qualquer língua: abra qualquer dicionário e verá que a maioria das palavras tem mais de um significado. Quanto à Wikipédia, indicá-la é simplesmente uma conveniência para meus leitores, já que ela se propõe a reunir o conhecimento humano. Se você ler os artigos científicos que escrevi, verá que nunca cito a Wikipédia ;)

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  6. ana celia

    gostaria de saber se o medico da familia resolve todas as especialidades, meu filho faz acompanhamento com fono, neuropsicologo e endocrino , obrigada

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    1. Leonardo Fontenelle Autor do post

      Ninguém sabe tudo. O médico de família é especialista em problemas comuns e em avaliação inicial de problemas ainda não identificados. Para o médico de família manter-se bom naquilo que faz, ele precisa de que outros profissionais cuidem dos outros problemas. Aproveito para chamar a atenção de que fonoaudiologia e psicologia não são especialidades médicas, e sim outras profissões. Na prática, a melhor opção é provavelmente conversar com seu médico de família sobre o que ele pode fazer por seu filho.

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