Gravidez na adolescência é causada por trauma de infância

De acordo com o IBGE, 5,5% das adolescentes com 15 a 17 anos de idade já tiveram um ou mais filhos. Não estou aqui para dizer se uma adolescente pode ou deve ter filhos, mas vários estudos mostram que uma gravidez na adolescência pode trazer uma série de consequências negativas tanto para a mãe quanto para o filho. É impressionante como uma garota pode engravidar sem querer, com tanta facilidade de informação e acesso a métodos de planejamento familiar (camisinha, pílula etc.), ou como uma garota possa decidir engravidar e assim prejudicar seu futuro nos estudos e no trabalho.

Quando lidamos com os adolescentes, vemos que a realidade é muito mais complexa. Poucas vezes a gravidez pode ser considerada como um acidente completo; muitas vezes o casal sabia que corria o “risco” de engravidar, ou então a gravidez foi mesmo planejada. O frequente abandono dos estudos pode não parecer importante para a adolescente, e às vezes a ordem é inversa: primeiro a adolescente abandona os estudos, e depois engravida. O namoro, união estável ou casamento com uma pessoa já estabelecida profissionalmente pode ser um motivo para a adolescente abandonar os estudos, ou pelo menos não abortar em caso de gravidez acidental. Por fim, uma gravidez pode significar para a adolescente um meio de ganhar prestígio social, ou mesmo de sair de uma família inadequada.

Fotografia da barriga de um gestante, a partir do chão.

Na década de 90, o CDC realizou, em convênio com o plano de saúde Kaiser Permanente, um estudo com 17 mil pessoas adultas, examinando a relação entre o estado de saúde atual e uma série de traumas de infância (e adolescência), conhecidos tecnicamente como experiências adversas na infância. Os traumas de infância estudados incluem maus-tratos físicos (bater não educa!), emocionais e sexuais, negligência emocional ou física, e o testemunho de problemas familiares como agressão física da mãe, uso de drogas (inclusive álcool) por alguém da casa, adoecimento mental de alguém da casa, divórcio ou separação dos pais, ou envolvimento de familiares em crimes.

O grupo confirmou que os traumas de infância estão associados a um comportamento menos saudável e a mais problemas de saúde. Ano passado eu já tinha listado as principais doenças da mulher e do homem brasileiros, bem como os principais fatores de risco (da mulher e do homem) que levam essas pessoas a adoecer; o terceiro elo dessa cadeia seriam os traumas de infância.

O artigo mais importante, publicado na revista científica Pediatrics, encontrou uma relação clara entre os traumas de infância e a gravidez na adolescência. Cada um dos tipos de trauma aumentou o risco de gravidez entre 20% e 90%, e quanto mais traumas de infância, maior o risco de gravidez na adolescência. O mais interessante foi que a gravidez na adolescência realmente se mostrou associada a uma série de problemas sociais e mentais (problemas familiares sérios, problemas financeiros sérios, estresse elevado e medo de não conseguir controlar a raiva), mas apenas para as mulheres que passaram por um ou mais traumas de infância. No caso das mulheres sem traumas de infância, a gravidez na adolescência não se associou a problemas atuais.

Dois outros artigos, publicados na Pediatrics e na Obstetrics and Gynecology, descobriram que o mesmo raciocínio se aplica a homens e adolescentes do sexo masculino que engravidam uma adolescente.

Mas nem tudo na vida são espinhos: outro artigo, publicado no The Permanente Journal, também encontrou características familiares capazes de proteger as adolescentes contra a gravidez. As características positivas estudadas foram a proximidade entre os familiares; o suporte que então criança recebia da família; a lealdade entre as pessoas da família; a proteção recebida; a importância que a pessoa tinha dentro da família; o amor recebido; e a prontidão da família em cuidar da saúde da pessoa. Quanto maior o número de características positivas, e quanto maior a intensidade dessas características, menor o risco de gravidez na adolescência, ou de problemas psicossociais durante a vida adulta.

O primeiro artigo mostrou ainda que as mulheres que relataram traumas de infância tinham maiores chances de serem elas mesmas fruto de uma gravidez na adolescência. É possível que a gravidez na adolescência funcione como um elo entre as gerações, facilitando para que pessoas com traumas de infância, e pouca saúde ou bem-estar, tenham filhos com traumas de infância e pouca saúde ou bem-estar.

Dois terços das mulheres relataram passar por pelo menos um trauma durante sua infância ou adolescência. Mesmo dentre as mulheres criadas em famílias com muitas características positivas, mais da metade relataram algum trauma de infância. Uma criança que é levada ao médico sempre que necessário pode, por exemplo, estar presenciando sua mãe ser agredida pelo namorado.

Quero deixar claro que o trauma de infância não é a única causa de gravidez na adolescência. Mesmo uma adolescente sem traumas de infância (e com famílias cheias de características positivas) pode engravidar. Os autores calcularam que um terço das gravidezes na adolescência sejam atribuíveis a maus-tratos, negligência e disfunção familiar, embora admitam que o número real pode ser maior, se de fato nem todas as vítimas tiverem relatado seus traumas de infância.

Apesar da pesquisa ter sido realizada nos Estados Unidos, acredito que as conclusões se apliquem ao Brasil, e que por aqui o problema seja pelo menos da mesma dimensão, se não maior. Interromper esse ciclo vicioso é um desafio assombroso, porque significa, em última análise, modificar a própria sociedade que faz adoecer seus indivíduo.

Nota de agradecimento: Esse artigo só foi possível graças à médica de família britânica Iona Heath, que citou o estudo em um recente discurso (em inglês) para o Royal College of Physicians, do Reino Unido.

Uma ideia sobre “Gravidez na adolescência é causada por trauma de infância

  1. Maria Fátima

    Sou estudante de ACS,do IFRJ-Pinheiral.
    Achei muito importante o tema abordado,pois enriqueceu bastante meus conhecimentos sobre a gravidez na adolescencia,pois este também foi um tema abordado por nossas tutoras no modulo de Prev.doen.ProSauAdolescentes.

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