Como evitar a rotatividade do médico de família

A continuidade da relação entre a pessoa e seu médico é uma das características mais importantes de uma boa atenção primária à saúde, tanto que um estudo brasileiro percebeu uma diminuição na necessidade de internação hospitalar simplesmente pelo fato do médico trabalhar há mais tempo na mesma equipe de Saúde da Família. Acontece que, na média, o médico trabalha apenas 2 anos no mesmo município, e nem sempre passa esse tempo todo com a mesma equipe. Pior ainda: uma pesquisa da UFMG constatou que “problemas que têm origem na gestão municipal são a principal causa da rotatividade dos médicos da ESF.”

Como prometido na semana passada, revisei estudos sobre a rotatividade dos médicos de família e comunidade no Brasil para trazer algumas dicas:

  • Chame um especialista. Quanto mais um médico se sente capacitado para trabalhar na estratégia Saúde da Família, menor o risco dele sair. Na prática, o que o município pode fazer é admitir apenas especialistas em medicina de família e comunidade, ou então incentivar os médicos da estratégia Saúde da Família a se especializar. Algumas secretarias municipais de saúde, como a do Rio de Janeiro, chegaram a criar o próprio programa de residência médica em medicina de família e comunidade. Para saber mais sobre essa especialidade, leia os artigos “Dia do médico de família, e aniversário de 30 anos da SBMFC” e “Clínico geral não é médico de família“.
  • Faça um concurso. Os médicos da estratégia Saúde da Família não costumam valorizar os concursos, mas na prática os concursos retêm o profissional. Com a estabilidade, o médico fica menos vulnerável às mudanças da gestão municipal, que são um dos principais motivos de rotatividade médica.
  • Exija experiência. A maioria dos médicos recém-formados encaram a estratégia Saúde da Família como um emprego temporário, enquanto não passam em uma prova de residência médica. Já para os médicos formados há 2 anos ou mais, o principal motivo é a identificação com o tipo de trabalho. Não é surpresa, portanto, que a rotatividade diminua com o aumento da experiência. Se o edital do concurso exigir residência médica ou título de especialista em medicina de família e comunidade, o tempo de formação já vem como brinde.
  • Incentive a permanência. Metade das transferências dentro do mesmo município são feitas por iniciativa da própria gestão municipal. Deveria ser justamente o contrário! Vejamos o que recomendam Juan Gérvas e Mercedes Pérez Fernández, em sua recente análise da APS brasileira: “Para isso poderia ser introduzido um incentivo por permanência na mesma UBSF (um complemento crescente, por ano de permanência, que seria perdido quando se produzisse a transferência para outra UBSF).”
  • Adicional de deslocamento. Grande parte das unidades de Saúde da Família são distantes de qualquer bairro de classe média-alta, e a demora em mais de uma hora no percurso para o trabalho aumenta as chances de que um médico venha a abandonar a equipe. Para que as unidades de saúde em bairros mais pobres e/ou mais remotas não sejam encaradas como algo temporário, enquanto o profissional não consegue transferência para “um lugar melhor”, é necessário oferecer algum tipo de benefício, financeiro ou não.
  • Cuide da satisfação. Como seria de se imaginar, os médicos mais satisfeitos têm maiores chances de continuar trabalhando no mesmo lugar. Em São Paulo, por exemplo, além da capacitação e do deslocamento, a satisfação com os recursos materiais foi um dos principais fatores relacionados com a rotatividade. Além disso, em Minas Gerais, um dos motivos mais frequentes para a rotatividade profissional foi discordância com a gestão.

Pagar maiores salários não diminui a rotatividade médica. Pelo contrário: os municípios com os maiores salários são os que têm a maior rotatividade. É que os municípios usam o salário maior para tentar compensar problemas da gestão, como o vínculo precário e a suscetibilidade aos ventos da política partidária, e assim pelo menos conseguir algum médico.

Naturalmente, essa é uma lista genérica, e cada município é um caso à parte. Que tal contar o que já foi feito em sua cidade, e qual foi o resultado?

Aproveite também para divulgar essas dicas para o departamento de recursos humanos de sua prefeitura, ou então para seu candidato a vereador e/ou prefeito!

Referências:

2 ideias sobre “Como evitar a rotatividade do médico de família

  1. Talita M.

    Gostei muito do post. Interessante a informação sobre o tempo do médico na unidade e as menores taxas de internações, não sou médica, curso nutrição, mas acredito que muitas informações que você passou são úteis para os variados profissionais da saúde.
    Abraço

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  2. Pingback: Como garantir acesso ao atendimento médico nas unidades de saúde | Doutor Leonardo

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