Arquivo do autor:Leonardo Fontenelle

Por que ser médico de família?

A escolha da especialidade médica traz consequências para a satisfação com o trabalho, a qualidade de vida e remuneração, além do crescimento pessoal e o entendimento do mundo ao nosso redor. No dia nacional do médico de família e comunidade, a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade publicou um vídeo curto com os motivos que fazem os médicos escolherem essa especialidade. Eu já tinha dado meus motivos, de forma sintética (até demais), mas este vídeo ficou mais interessante! Os motivos foram apresentados por especialistas em medicina de família e comunidade, e escolhido por seguidores da SBMFC no Facebook:

Por que escolhi ser MFC?

A SBMFC perguntou por que os médicos de família e comunidade escolheram a especialidade. As frases mais votadas na página do facebook até dia 28 de novembro fazem parte deste vídeo! A Sociedade agradece a participação de todos que juntos constroem uma APS mais resolutiva para que cada brasileiro possa ter um MFC para chamar de seu. #OrgulhodeserMFC #DiadoMFC #SBMFC

Posted by Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade – SBMFC on Thursday, December 7, 2017

Para quem está chegando agora e não sabe muito bem o que é um médico de família, este vídeo explica de forma bem simples. Bom para entender e compartilhar!

Quem é o Médico de Família e Comunidade?

E no Dia Nacional do Médico de Família e Comunidade, comemorado em 5 de dezembro, data de fundação da SBMFC, que completa 36 anos em 2017, a Sociedade divulga vídeo sobre quem é o médico de família e comunidade. O material foi produzido e dirigido por membros do Rural Seeds e da SBMFC para que os especialistas no cuidado centrado na pessoa compartilhem com seus pacientes, família, colegas de trabalho para mostrar as características da especialidade e a importância para nossa população e para nosso sistema de saúde. #OrgulhodeserMFC #DiadoMFC #SBMFC

Posted by Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade – SBMFC on Tuesday, December 5, 2017

Doutor é quem tem doutorado?

Na minha opinião, a pessoa se recusar a chamar um médico de doutor é tão tolo quanto o médico exigir ser assim chamado. Sempre fiz questão de que outros profissionais da equipe me chamassem pelo primeiro nome, e nunca coloquei “Dr.” no carimbo. Já tive pacientes me chamando de “você”, “senhor”, “doutor” ou “professor”, sempre mantendo uma ótima relação, sem a agressividade que parece vir casada com a tirada “doutor é quem tem doutorado”. Só me chamo de “doutor” em raras situações, quando preciso comunicar rapidamente que sou médico, como no título deste blog ou em ligação telefônica a respeito de paciente. E isso funciona, porque em nossa sociedade chamar alguém de “doutor” é mais ou menos a mesma coisa que dizer que essa pessoa é médica, especialmente em um serviço de saúde.

Diálogo entre duas personagens do seriado Friends.

Ross: “Eu sou doutor Ross Geller.”
Rachel: “Ross, por favor, isto é um hospital, OK? ‘Doutor’ realmente significa algo aqui.”

Quem discordar pode me chamar de “doutor” mesmo assim. Há poucos dias o colegiado do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da UFPel homologou minha defesa da tese! Um dos artigos já foi publicado pelos Cadernos de Saúde Pública e outro já foi aceito para publicação pela Revista de Saúde Pública, além do terceiro, que estou melhorando antes de submeter a uma revista.

Corrigindo… pessoas com sobrepeso vivem MENOS

Há quatro anos, divulguei uma descoberta contraintuitiva: pessoas com sobrepeso (IMC entre o recomendado e a obesidade) pareciam ter uma expectativa de vida maior do que aquelas com o peso dito normal. O estudo tinha concluído isso reunindo 141 pesquisas, com 2,9 milhões de participantes, então isso não era algo para se desconsiderar. O problema era que as principais doenças crônicas não transmissíveis são agravadas pelo sobrepeso (em comparação ao peso recomendado), de forma que os próprios autores do estudo admitiram a necessidade de examinar melhor do que é que essas pessoas estavam morrendo.

No fim das contas, o nó acabou sendo desatado de outra forma, através de um estudo ainda mais apurado, que contradisse as conclusões do anterior.

Gráfico de floresta para a razão de hazards para cada incrementos de 2,5 kg/m² no IMC, por sexo. Nadir em 22,5 a 25,0 kg/m², com aumento para ambos os lados.

Associação do índice de massa corpórea com a mortalidade geral, por sexo. © 2016 The Global BMI Mortality Collaboration. Distribuído sob a licença CC BY 4.0 Internacional.

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O efeito de frutas, hortaliças, leguminosas sobre nossa saúde

Os leitores já devem estar familiarizados como estudo PURE, que seguiu mais de 135 mil pessoas, distribuídas entre 613 comunidades, em 18 países (inclusive Brasil), em variados continentes e graus de desenvolvimento econômico. O objetivo do estudo é avaliar uma grande variedade de fatores de risco para o desenvolvimento de doença cardiovascular, principalmente infarto cardíaco e derrame (acidente vascular cerebral , AVC). Esse estudo já mostrou que consumir pouco sal parece aumentar o risco cardiovascular, e que consumir pouca gordura ou muito carboidrato parecem aumentar o risco de mortes não cardiovasculares. Agora é a hora de saber se consumir frutas, hortaliças (verduras) e legumes faz mesmo bem para a saúde.

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Mais gordura, menos carboidrato, mais saúde

Há muito tempo se sabe que uma dieta rica em gorduras saturadas está associada aos níveis de colesterol LDL (“ruim”), que está associado a placas de colesterol, que estão associadas a doenças cardiovasculares, como o infarto agudo do miocárdio (enfarte cardíaco) e o acidente vascular cerebral (AVC, derrame). Por isso, há cerca de quarenta anos se recomenda uma dieta pobre em gordura (especialmente saturada) e rica em carboidratos (como arroz e pão).

Desde então, nosso entendimento do assunto avançou consideravelmente. Por exemplo, já sabemos que consumir ovo não aumenta o risco de doença cardiovascular, apesar de a gema do ovo ser rica em colesterol. Não apenas o ovo é rico em substâncias benéficas, mas (o mais importante) várias pesquisas verificaram que o risco cardiovascular não aumenta com o consumo de ovo.

Agora é a vez reexaminarmos o papel das gorduras e dos carboidratos no risco cardiovascular. Lembram-se do estudo PURE, com seus surpreendentes resultados sobre a relação entre a ingestão de sódio e a mortalidade? Em um artigo publicado em agosto pela revista científica The Lancet), os pesquisadores do PURE avaliaram a relação entre a ingestão de gorduras e carboidratos e o risco de doença cardiovascular (inclusive morte cardiovascular) e de morte por quaisquer causas. Durante uma média de 7,4 anos, o estudo acompanhou mais de 135 mil pessoas, tanto na área urbana quanto na rural, em 18 países distribuídos entre todos os continentes e estratos de desenvolvimento econômico, inclusive o Brasil.

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Suplementos vitamínicos e minerais não previnem degeneração macular

A degeneração macular relacionada à idade é uma causa de cegueira entre os idosos, podendo evoluir em questão de meses. O risco de degeneração macular parece aumentar com os mesmos fatores de risco conhecidos para doenças cardiovasculares como infarto e derrame, e alguns genes específicos foram identificados. Como se acredita que radicais livres estejam envolvidos, faz sentido pensar que vitaminas e/ou minerais antioxidantes possam ajudar a prevenir a instalação da doença.

No dia 30 de julho, a Colaboração Cochrane publicou uma revisão sistemática dos estudos onde suplementos vitamínicos e/ou minerais foram testados para a prevenção de degeneração macular. A revisão incluiu cinco estudos, com mais de 76 mil participantes, testando vitamina C (ácido ascórbico), betacaroteno (uma forma inativa de vitamina A), vitamina E (tocoferois, tocotrienois) e um suplemento multivitamínico (que também incluía vários minerais).

Em resumo, a revisão concluiu que:

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Crônicas da medicina de família

Acompanho os Causos clínicos desde seu início, há pouco mais de um ano. Trata-se de uma obra coletiva de médicos de família e comunidade brasileiros, revelando seu olhar sobre o encontro com as pessoas de quem eles cuidam. Mais do que medicamentos ou exames laboratoriais, sua matéria-prima são histórias de vida. Talvez sua melhor definição seja a conclusão de um dos primeiros “causos”: a atenção primária é uma cadeira na primeira fila para o espetáculo da vida.

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Considerações sobre a minuta da Política Nacional de Atenção Básica

Está no forno a nova Política Nacional de Atenção Básica — PNAB, para os íntimos. Depois de ter sido discutida em outras instâncias, a minuta da PNAB passou pela Comissão Intergestores Tripartite (CIT, que articula secretários municipais e estaduais a Ministério da saúde), que abriu uma consulta pública.

Revisão da PNAB aberta à Consulta Pública até o dia 6 de agosto

Conselho Nacional de Saúde/Divulgação

Quando a versão anterior foi lançada, em 2011, esperei a publicação oficial da PNAB para comentá-la em uma revista científica e aqui no Doutor Leonardo. Desta vez, vou colocar o carro na frente dos bois, e comentar logo por aqui. Outra diferença é que, em vez de comentar a PNAB como um todo, detenho-me apenas em alguns pontos que me chamaram a atenção.

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A relação reversa entre atividade física e demência

A falta de atividade física é um dos principais fatores de risco para a saúde no Brasil, assim como no resto do mundo. A importância da atividade física é devida principalmente a sua relação com doenças cardiovasculares e câncer; sua relação com a demência é mais controvérsia. Estudos observacionais indicam que as pessoas com baixos níveis de atividade física têm maior risco de receberem o diagnóstico de demência nos anos seguintes; mas estudos de intervenção não têm comprovado o suposto efeito protetor da atividade física sobre a demência.

A revista The BMJ publicou recentemente um estudo europeu sobre a relação entre demência e atividade física, com base na coorte Whitehall II. Essa coorte é uma pesquisa que incluiu mais de 10 mil servidores públicos britânicos com 35 a 55 anos de idade na década de 80, e os tem acompanhado desde então. Ao longo de um acompanhamento que durou em média 27 anos, essas pessoas foram avaliadas várias vezes com relação ao nível de atividade física e ao funcionamento da mente, entre outras características relevantes. O diagnóstico de demência foi obtido a partir do sistema de saúde público da Inglaterra, que é usado até por quem tem plano de saúde para o tratamento de problemas de saúde clínicos e/ou crônicos.

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