Arquivo do autor:Leonardo Fontenelle

Repelentes eletrônicos não afastam o mosquito da dengue e da zika

O Brasil tenta há décadas controlar os mosquitos do gênero Aedes, que transmitem os vírus da zika (e dengue, chikungunya), mas o resultado deixa muito a desejar. Por isso, as pessoas têm lançado mão de estratégias individuais, como o uso de repelentes, inclusive os eletrônicos.

Fotografia do mosquito Aedes aegypti pousado sobre pele humana

Aedes aegypti (CDC-Gathany)

Em tese, os repelentes eletrônicos funcionariam emitindo sons que apenas os mosquitos conseguiriam ouvir. O problema dos repelentes eletrônicos é que, infelizmente, eles não funcionam.

Em 1998, a Revista Cubana de Medicina Tropical publicou um artigo de revisão sobre os repelentes eletrônicos, concluindo que eles não funcionavam. Essa revisão incluiu pesquisas que usaram pelo menos nove aparelhos diferentes, contra pelo menos 16 espécies de mosquitos (não só Aedes), em lugares tão variados quanto o Alasca e a África.

Apesar dos avanços tecnológicos dos últimos 18 anos, a eficácia dos repelentes eletrônicos não parece ter aumentado. Em 2010, o Journal of Vector Ecology publicou um artigo de dois pesquisadores brasileiros, relatando que nenhum dos três repelentes eletrônicos testados conseguia afastar o Aedes aegypti. Os repelentes até conseguiram irritar os mosquitos, mas o resultado foi um aumento na frequência de picadas enquanto os repelentes eletrônicos estavam ligados. Os três repelentes eletrônicos estavam comercialmente disponíveis, ou seja, estavam sendo vendidos no Brasil.

Pessoalmente, já experimentei um repelente eletrônico contra outros insetos, com resultados igualmente desapontadores. Felizmente, os repelentes químicos (sejam eles naturais ou sintéticos) funcionam muito bem contra os mosquitos, desde que aplicados conforme as respectivas orientações.

SBMFC recomenda 9 melhorias na Lei dos Mais Médicos

A Lei nº 12.871, mais conhecida como a Lei dos Mais Médicos, aborda não apenas a distribuição de médicos bolsistas para os municípios, mas também uma série de questões relativas à formação dos médicos, tanto na graduação quanto na especialização (residência médica). Como o Congresso Nacional está avaliando projetos de lei que visam  a alterar a Lei dos Mais Médicos, a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC) emitiu em dezembro do ano passado um posicionamento a esse respeito, com 9 recomendações que dizem respeito à nossa especialidade: Continue lendo

O ano de 2015 em números

De acordo com o serviço de estatísticas WordPress.com, em 2015 o Doutor Leonardo recebeu 1,5 milhão de visitas, o que dá uma média de mais de 4 mil visitas por dia. Foram mais de 1 milhão de visitantes diferentes, quase todos eles brasileiros, o que em princípio significa que quase um em cada 200 brasileiros leram um ou mais artigos deste blog no ano passado.

Os artigos mais lidos foram aqueles que mais interessaram aos visitantes enviados pelo GoogleComo fazer lavagem de ouvido em casaComo saber se você está grávida e Eficácia e segurança da pílula do dia seguinte. São artigos que ajudam as pessoas a cuidar melhor da própria saúde.

Nem todos os leitores do Doutor Leonardo entraram nessas estatísticas. Geralmente, os mais de 2 mil assinantes deste blog não precisam visitá-lo, já que recebem em seu correio eletrônico o conteúdo integral de todos os artigos na medida em que estes são publicados.

Fico lisonjeado em perceber que a visitação vai de vento em popa, mesmo eu tendo tido pouco tempo para escrever em 2015. Entendo a crescente popularidade deste blog como sendo fruto da consistência do trabalho desenvolvido, e espero que em 2016 essa tendência se mantenha.

Feliz Ano Novo para todos nós!

A medicina de família no Espírito Santo em 2015

No Brasil, o dia  do médico de família e comunidade é comemorado no dia 5 de dezembro, em referência ao dia de fundação da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC) em 1981.  A Associação Capixaba de Medicina de Família e Comunidade (ACMFC) já publicou uma matéria comemorativa, cuja leitura recomendo.

#diadomfc 05/12 - Dia do Médico de Família e Comunidade Parabéns a todos os Médicos de Família e Comunidade, por cuidarem da população da forma mais justa e com todo o respeito que merece.

© SBMFC (divulgação)

Da minha parte, aproveito para comentar algumas notícias, sobre a especialidade, que eu não tive tempo de comentar ao longo deste ano. A medicina de família e comunidade vem crescendo no Espírito Santo, tanto em visibilidade na mídia quanto em mercado de trabalho e vagas para especialização (residência médica).

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A visão de um médico de família sobre o rastreamento do câncer de próstata

No mês de outubro, o Instituto Lado a Lado Juntos pela Vida e a Sociedade Brasileira de Urologia realizam uma campanha (Novembro Azul) para estimular os homens a fazer exames de rastreamento do câncer de próstata, Ao contrário do que muita gente acredita, essa não é uma campanha do Ministério da Saúde. Na verdade, Ministério da Saúde e Instituto Nacional do Câncer (INCA) não recomendam o rastreamento do câncer de próstata, por considerarem que os malefícios superem os benefícios.

Neste ano a imprensa percebeu que não existe um consenso em torno do assunto, e o debate ganhou destaque nacional através de veículos como a Folha de São Paulo e o Jornal Nacional. Como as evidências científicas atuais são basicamente as mesmas de quando discuti o rastreamento do câncer de próstata em 2010, prefiro trazer hoje outra abordagem: explicar como médicos de família e urologistas podem ter pontos de vista tão diferentes sobre a questão.

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Qual é a novidade sobre carne processada e câncer?

Semana passada a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), que é o órgão da Organização Mundial da Saúde dedicado ao câncer, publicou uma nota à imprensa sobre o papel da carne processada e da carne vermelha na causa do câncer, além de uma nota na revista científica The Lancet Oncology.

Quatro embutidos fatiados

© Kent Wang (CC BY-SA 2.0)

Essa nota do IARC repercutiu nos meios de comunicação, e uma das coisas que mais se repete é que a carne processada agora está no mesmo grupo que o cigarro. Não, a carne processada não causa câncer com a mesma potência do cigarro! A novidade é que agora o IARC tem certeza de que tanto a carne processada quanto o cigarro são algumas das causas de câncer.

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Prova para ser médico?

Neste dia 22 de outubro, pouco depois do dia do médico, a Associação Paulista de Medicina divulgou uma pesquisa de opinião segundo a qual 91% dos brasileiros seriam favoráveis aos médicos precisarem passar por uma prova antes de exercerem a medicina. A pesquisa incluiu mais de 2 mil pessoas com 16 anos de idade ou mais, e percorreu 135 municípios, dentro e fora de regiões metropolitanas das 5 regiões do país.

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8ª Jornada de Capixaba de MFC

No dia 25 de setembro a Associação Capixaba de Medicina de Família e Comunidade vai realizar a sua 9ª jornada. Este é o primeiro ano em que jornada abriga um encontro de médicos residentes e outro de ligas acadêmicas. Outra novidade é que, neste ano, a jornada não será realizada dentro do congresso da AMES. Confiram a programação para maiores detalhes. Mais importante: divulguem que a entrada é gratuita!

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Anticoncepcionais modernos têm maior risco de trombose

As mulheres brasileiras estão cada vez mais conscientes de que as pílulas anticoncepcionais (contraceptivos hormonais orais) aumentam o risco de trombose venosa profunda, que é quando o sangue “coagula” dentro das veias da pessoa. A gravidade de uma trombose pode ser desde mínima até morte súbita, passando pela possibilidade de deixar sequelas.

Cartela de pílua anticoncepcional sobre teclado de computador.

© anga. Licença CC BY-NC 2.0.

Apesar do aumento no risco de trombose, os anticoncepcionais são considerados medicamentos muito seguros, e podem ser comprados sem receita médica. A trombose venosa profunda (e uma de suas complicações, a embolia pulmonar) é tão rara que, mesmo com o aumento do risco devido ao anticoncepcional, continua sendo uma complicação rara. Além disso, a gravidez aumenta o risco de trombose ainda mais do que a pílula anticoncepcional, e ninguém deixa de engravidar por causa disso.

O que poucas mulheres sabem é que as pílulas anticoncepcionais mais modernas aumentam o risco de trombose ainda mais do que as pílulas mais antigas. Apesar de essa diferença não ser novidade para nós médicos, decidi comentar o assunto mesmo assim, aproveitando a recente publicação de uma pesquisa sobre o assunto.

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As 10 piores doenças no Brasil

Estou listando os grupos de doenças (e outros danos à saúde) pelo mesmo critério de meu artigo sobre os 10 principais fatores de risco para a saúde no Brasil. Ou seja, estou levando em consideração o número de pessoas afetadas, o grau de incapacidade das pessoas vivas, e a precocidade das mortes.

  1. As doenças cardíacas e circulatórias como o infarto e o derrame (AVC) somam 15% da carga de doença. A boa notícia é que essa carga de doença diminuiu em 33% desde 1990! (Leia também: “A saúde do brasileiro está melhorando ano após ano”, e “Saúde da Família previne mortes por infarto e derrame“.)
  2. Os transtornes mentais e do comportamento, como depressão, ansiedade e abuso do álcool, somam 12% da carga de doença. (Leia também: “Como saber se você está com depressão”, e “Você sabe beber com moderação?”)
  3. Os transtornos músculo-esqueléticos, principalmente dor inespecífica nas costas e no pescoço, somam 9% da carga de doença.
  4. Os cânceres somam 8% da carga de doença. Esse percentual é distribuído entre vários tipos de câncer; os principais são os cânceres de pulmão, os cânceres de intestino grosso, e os cânceres de mama. (Leia também: “Mamografia aos 40 anos é controversa”, “Mamografia pode ser feita a cada 2 anos”, “Quando parar de fazer mamografia”, e “Autoexame das mamas faz mal à saúde”.)
  5. Os danos intencionais, devidos principalmente a agressão entre pessoas, somaram 7% da carga de doença. Essa carga de doença aumentou em 13% de 1990 a 2000, mas diminuiu em 7% de 2000 a 2010.
  6. O grupo formado por diabetes e outras doenças endócrinas, além de doenças do aparelho urinário e genital e doenças do sangue (como doença falciforme) somaram 7% da carga de doença. A carga de doença devida exclusivamente pelo diabetes foi de 3%, e essa carga aumentou em 13% entre 1990 e 2010. (Leia também: “Como prevenir o diabetes mellitus.”)
  7. Os transtornos neonatais, como as complicações do parto prematuro, têm origem quando a pessoa ainda é recém-nascida, somam 6% da carga de doença. Essa carga de doença diminuiu em 44% desde 1990.
  8. As doenças respiratórias crônicas, como a doença pulmonar obstrutiva crônica (enfisema e bronquite crônica) e a asma, somam 5% da carga de doença. Essa carga de doença diminuiu em 31% desde 1990. (Leia também: “As doenças causadas pelo tabagismo passivo”, “Como parar de fumar” e “Como usar adesivos de nicotina para parar de fumar.”)
  9. A diarreia, as infecções respiratórias baixas (como pneumonia), a meningite e outras infecções ainda são responsáveis por 5% da carga de doença. Por outro lado, este grupo viu as maiores reduções em carga de doença desde 1990: 82% para diarreia, 59% para pneumonia, e 62% para meningite. Em 1990, este grupo tinha a segunda maior carga de doença, atrás apenas das doenças cardiovasculares. (Leia também: “Saúde da Família diminui mortalidade infantil.”)
  10. Os danos relacionados ao transporte, como os acidentes de trânsito, são responsáveis por 4% da carga de doença. (Leia também: “Por que usar cinto de segurança no banco de trás?”.)

Quando analisamos apenas os anos vividos com incapacidade, os transtornos mentais e do comportamento assumem o primeiro lugar da lista, com 28% da carga de doença, seguidos pelos transtornos músculo-esqueléticos (22%) e as doenças respiratórias crônicas (7,2%). Por outro lado, quando analisamos apenas os anos de vida perdidos (por morte precoce), as doenças cardíacas e circulatórias voltam a ocupar o primeiro lugar da lista (24% da carga de doença), seguidas pelos cânceres (14%) e os danos intencionais (12%).

Essas médias escondem diferenças importantes entre homens e mulheres. O sexo masculino tem praticamente o dobro de anos de vida perdidos, em comparação ao “sexo frágil”! A diferença não está apenas nas chamadas causas externas, como os danos intencionais (741% a mais) ou os danos relacionados ao trânsito (376% a mais). Os homens também têm mais anos de vida perdidos por problemas como as doenças cardíacas e circulatórias (38% a mais), os cânceres (18,4% a mais) e até mesmo os transtornos do período neonatal (45% a mais).

Felizmente, a tendência é favorável tanto para homens quanto para mulheres. Descontando-se os efeitos do envelhecimento da população, quase todos os principais problemas de saúde do Brasil ou estão estáveis, ou estão diminuindo de forma importante. Isso é o resultado de uma série de fatores, desde melhorias no acesso aos alimentos e à água tratada até o desenvolvimento de novas formas de tratamento e a melhoria no acesso a serviços de saúde.

Ainda temos muito o que melhorar, mas é bom sabe que estamos no rumo certo!