Arquivos da categoria: Miscelânea

Mais gordura, menos carboidrato, mais saúde

Há muito tempo se sabe que uma dieta rica em gorduras saturadas está associada aos níveis de colesterol LDL (“ruim”), que está associado a placas de colesterol, que estão associadas a doenças cardiovasculares, como o infarto agudo do miocárdio (enfarte cardíaco) e o acidente vascular cerebral (AVC, derrame). Por isso, há cerca de quarenta anos se recomenda uma dieta pobre em gordura (especialmente saturada) e rica em carboidratos (como arroz e pão).

Desde então, nosso entendimento do assunto avançou consideravelmente. Por exemplo, já sabemos que consumir ovo não aumenta o risco de doença cardiovascular, apesar de a gema do ovo ser rica em colesterol. Não apenas o ovo é rico em substâncias benéficas, mas (o mais importante) várias pesquisas verificaram que o risco cardiovascular não aumenta com o consumo de ovo.

Agora é a vez reexaminarmos o papel das gorduras e dos carboidratos no risco cardiovascular. Lembram-se do estudo PURE, com seus surpreendentes resultados sobre a relação entre a ingestão de sódio e a mortalidade? Em um artigo publicado em agosto pela revista científica The Lancet), os pesquisadores do PURE avaliaram a relação entre a ingestão de gorduras e carboidratos e o risco de doença cardiovascular (inclusive morte cardiovascular) e de morte por quaisquer causas. Durante uma média de 7,4 anos, o estudo acompanhou mais de 135 mil pessoas, tanto na área urbana quanto na rural, em 18 países distribuídos entre todos os continentes e estratos de desenvolvimento econômico, inclusive o Brasil.

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Suplementos vitamínicos e minerais não previnem degeneração macular

A degeneração macular relacionada à idade é uma causa de cegueira entre os idosos, podendo evoluir em questão de meses. O risco de degeneração macular parece aumentar com os mesmos fatores de risco conhecidos para doenças cardiovasculares como infarto e derrame, e alguns genes específicos foram identificados. Como se acredita que radicais livres estejam envolvidos, faz sentido pensar que vitaminas e/ou minerais antioxidantes possam ajudar a prevenir a instalação da doença.

No dia 30 de julho, a Colaboração Cochrane publicou uma revisão sistemática dos estudos onde suplementos vitamínicos e/ou minerais foram testados para a prevenção de degeneração macular. A revisão incluiu cinco estudos, com mais de 76 mil participantes, testando vitamina C (ácido ascórbico), betacaroteno (uma forma inativa de vitamina A), vitamina E (tocoferois, tocotrienois) e um suplemento multivitamínico (que também incluía vários minerais).

Em resumo, a revisão concluiu que:

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Crônicas da medicina de família

Acompanho os Causos clínicos desde seu início, há pouco mais de um ano. Trata-se de uma obra coletiva de médicos de família e comunidade brasileiros, revelando seu olhar sobre o encontro com as pessoas de quem eles cuidam. Mais do que medicamentos ou exames laboratoriais, sua matéria-prima são histórias de vida. Talvez sua melhor definição seja a conclusão de um dos primeiros “causos”: a atenção primária é uma cadeira na primeira fila para o espetáculo da vida.

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Considerações sobre a minuta da Política Nacional de Atenção Básica

Está no forno a nova Política Nacional de Atenção Básica — PNAB, para os íntimos. Depois de ter sido discutida em outras instâncias, a minuta da PNAB passou pela Comissão Intergestores Tripartite (CIT, que articula secretários municipais e estaduais a Ministério da saúde), que abriu uma consulta pública.

Revisão da PNAB aberta à Consulta Pública até o dia 6 de agosto

Conselho Nacional de Saúde/Divulgação

Quando a versão anterior foi lançada, em 2011, esperei a publicação oficial da PNAB para comentá-la em uma revista científica e aqui no Doutor Leonardo. Desta vez, vou colocar o carro na frente dos bois, e comentar logo por aqui. Outra diferença é que, em vez de comentar a PNAB como um todo, detenho-me apenas em alguns pontos que me chamaram a atenção.

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A relação reversa entre atividade física e demência

A falta de atividade física é um dos principais fatores de risco para a saúde no Brasil, assim como no resto do mundo. A importância da atividade física é devida principalmente a sua relação com doenças cardiovasculares e câncer; sua relação com a demência é mais controvérsia. Estudos observacionais indicam que as pessoas com baixos níveis de atividade física têm maior risco de receberem o diagnóstico de demência nos anos seguintes; mas estudos de intervenção não têm comprovado o suposto efeito protetor da atividade física sobre a demência.

A revista The BMJ publicou recentemente um estudo europeu sobre a relação entre demência e atividade física, com base na coorte Whitehall II. Essa coorte é uma pesquisa que incluiu mais de 10 mil servidores públicos britânicos com 35 a 55 anos de idade na década de 80, e os tem acompanhado desde então. Ao longo de um acompanhamento que durou em média 27 anos, essas pessoas foram avaliadas várias vezes com relação ao nível de atividade física e ao funcionamento da mente, entre outras características relevantes. O diagnóstico de demência foi obtido a partir do sistema de saúde público da Inglaterra, que é usado até por quem tem plano de saúde para o tratamento de problemas de saúde clínicos e/ou crônicos.

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Vantagens e desvantagens de medir a pressão em casa

O que é mais confiável: você mesmo medir a pressão em casa, ou o médico medir sua pressão no consultório?

Os aparelhos de pressão digitais, que se usa para medir a pressão em casa, precisam ter a calibração verificada com frequência. Além disso, nem todo o mundo sabe como medir a pressão em casa. Mas, quando as pessoas são ensinadas a medir corretamente a pressão em casa, e têm acesso a aparelhos de pressão calibrados, a medida residencial da pressão arterial é mais confiável do que a medida no consultório.

Woman with Blood pressure monitor

O motivo disso é que a pressão arterial está sempre mudando, de uma hora para outra, de um dia para outro. Por isso, é importante medir a pressão em ocasiões diferentes para saber como ela realmente está. Aí está a vantagem de medir a pressão em casa: a facilidade de medir a pressão em ocasiões diferentes.

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Por que medicina de família?

Estive conversando com uma pessoa de fora da área da saúde, e ela quis saber o que me motivou a ser médico de família e comunidade. Achei que a resposta poderia interessar aos leitores:

A medicina de família e comunidade é uma especialidade que alia o desafio técnico de uma prática abrangente com a oportunidade de um relacionamento com as pessoas para um pouco além de suas doenças. Dessa forma, a medicina de família e comunidade é um grande estímulo tanto para a cabeça quanto para o coração.

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Andar a pé ou de bicicleta evita câncer, infarto e derrame

Há muito tempo se sabe que atividade física faz bem para a saúde, e a falta de atividade física é um dos 10 principais fatores de risco para a nossa saúde. Uma forma de resolver isso é através de exercício físico (atividade física planejada), mas na prática pouca gente tem tempo. Outra forma é incorporar a atividade física no dia-a-dia, como no deslocamento para o trabalho.

Em um estudo recém publicado pela revista The BMJ, pesquisadores da Escócia analisaram dados sobre morte e internação hospitalar para mais de 250 mil pessoas que trabalhavam fora de casa, participantes de uma pesquisa com base populacional. Essas pessoas eram homens e mulheres com 40 a 69 anos de idade, e num dia típico 5,4% iam a pé para o trabalho, 2,5% iam de bicicleta, e 13,7% misturavam algum desses meios de transporte ativo com algum meio passivo, como dirigir carro.

Gráfico de floresta para a associação entre a forma de deslocamento para o trabalho e o risco de morte ou internação por doenças cardiovasculares, por câncer, ou (morte) por qualquer causa.

© 2017 Carlos A Celis-Morales, Donald M Lyall, Paul Welsh, Jana Anderson, Lewis Steell, Yibing Guo, Reno Maldonado, Daniel F Mackay, Jill P Pell, Naveed Sattar, Jason M R Gill. CC BY 4.0.

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Vila Velha dispensa laudo médico para vacinar idosos contra febre amarela

De acordo com o portal de notícias G1, o município de Vila Velha decidiu que idosos sem laudo médico poderão ser vacinados contra a febre amarela. A médica Márcia Andriolo, assessora especial do secretário municipal de saúde, teria informado que o procedimento atendia às normas do Programa Nacional de Imunização (PNI). Antes de serem vacinados, idosos sem laudo precisariam responder a uma série de questões, e caso não apresentem contra-indicações absolutas nem outras contraindicações relativas (além da idade, que é uma relativa), poderiam receber a vacina desde que concordassem com o risco de eventos adversos graves.

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Viciado em gomas de nicotina

Possivelmente depois de ter lido meu artigo sobre como usar adesivos de nicotina para parar de fumar, um leitor me perguntou:

Larguei de fumar faz 17 anos, mas viciei nas gomas de [nicotina]. Não consigo abandonar. O que devo fazer?

Como vocês sabem, não dá para fazer consulta médica através de blog ou e-mail. Por isso mesmo, minha resposta pode interessar a todos os leitores:

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