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Alimentação saudável, nutrição, suplementos.

Cálcio e vitamina D só previnem fraturas em idosos no asilo?

A osteoporose não dói, mas aumenta silenciosamente o risco de fraturas espontâneas ou por quedas da própria altura. Por isso, cientistas do Reino Unido ligados à Colaboração Cochrane realizaram uma revisão sistemática das pesquisas que abordaram a eficácia dos suplementos de cálcio e vitamina D sobre o risco de fratura por osteoporose.

Fotografia de vidro quebrado contra o sol

Duas pesquisas, realizadas em asilos franceses, tiveram resultados realmente animadores. Os idosos que usaram o suplemento tiveram um risco 25% menor de fraturas de quadril, que são justamente as fraturas com maior impacto sobre a mobilidade e a expectativa de vida.

Já os estudos realizados na comunidade não encontraram benefício algum. Foram 6 pesquisas, envolvendo 43 mil pessoas, a maioria delas de alto risco (por exemplo, antecedente de fratura espontânea), e mesma assim não foi comprovada diferença entre as fraturas com e sem suplementos. Isso vale tanto para as fraturas de quadril quanto para as outras, como as de coluna vertebral.

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Suplementos com cálcio parecem causar infarto

O British Medical Journal publicou, em 2010 e 2011, dois estudos que revisaram o efeito dos suplementos de cálcio, com ou sem vitamina D, sobre o risco de infarto agudo do miocárdio e AVC (derrame). Foram incluídas 9 pesquisas, com mais de 28 mil homens e mulheres de meia-idade e idosos; o risco de infarto se mostrou 24% maior entre as pessoas que tomavam suplementos com cálcio.

Pó de carbonato de cálcio sobre um prato transparente, sobre um fundo negro.

No primeiro estudo, que abordou apenas os suplementos de cálcio sem vitamina D, foi possível ainda analisar a influência do cálcio da alimentação. As pessoas cuja alimentação continha mais de 800mg de cálcio por dia tiveram um aumento de 85% em seu risco de infarto com o uso dos suplementos; já as pessoas com dieta pobre em cálcio podiam usar os suplementos sem risco adicional. Essa diferença é ainda mais importante ao considerarmos que uma alimentação com 800mg de cálcio por dia é o suficiente para minimizar fraturas de osteoporose. Com uma ingestão diária maior do que 800mg, o risco de fratura continua o mesmo, e talvez até aumente.

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Prevenção de fratura por osteoporose: bastam 800mg de cálcio por dia

Pesquisadores da Suécia seguiram mais de 60 mil mulheres durante 19 anos, e avaliaram a relação entre o consumo de cálcio nos alimentos (poucas mulheres usavam suplementos de cálcio e/ou vitamina D) e o risco de fratura ou osteoporose. A conclusão, publicada este ano no British Medical Journal, é que as mulheres de meia-idade que ingerem cálcio acima da média apresentam um risco de osteoporose e fratura igual (ou maior) ao das com uma ingestão média.

Gráfico do risco ajustado de fratura osteoporótica de quadril, em função da ingestão diária de cálcio, usando 800mg como referência.

Mulheres que ingeriam menos de 750 mg de cálcio por dia tiveram um risco 32% maior de sofrer uma ou mais fraturas de quadril, e um risco 47% maior de desenvolver osteoporose. Essas eram as mulheres para as quais um consumo adequado de vitamina D também diminuía o risco de fratura.

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Saudável em Qualquer Tamanho: uma abordagem controversa da obesidade

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a obesidade é um dos fatores de risco modificáveis mais prejudiciais à saúde. O problema é que, na prática, poucas pessoas conseguem emagrecer e manter essa perda de peso a longo prazo. Dessa forma, faz sentido prestarmos atenção em abordagens alternativas como a Health at Every Size (HAES; em português: Saúde em Qualquer Tamanho), que faz uma opção explícita por promover um estilo de vida saudável sem emagrecimento.

Mulher gorda bonita

O diferencial da HAES está nas seguintes propostas:

  • Aceitação do corpo — As pessoas são encorajadas a aceitar seus corpos como são, em vez de perseguirem um corpo mais magro.
  • Suporte à alimentação intuitiva — As pessoas são encorajadas a observar a relação entre o que comem e como elas se sentem a curto e médio prazo, e usar esse conhecimento para determinar o que vão comer, em vez se seguir regras “externas”.
  • Suporte à incorporação ativa — As pessoas são estimuladas a incorporar a atividade física ao seu dia-a-dia, tendo em vista o auto-cuidado e o bem-estar, em vez de desenvolver programas estruturados de exercícios físicos.

De acordo com os adeptos da HAES, a obesidade não causa adoecimento ou mortalidade, a não ser em casos extremos. Desconfio que essa ruptura com o consenso científico atual agradará muito às pessoas que desconfiam das instituições de uma forma geral, bem como às pessoas que estão cansadas de fazer dieta. Por isso mesmo, resolvi resumir os principais estudos que se propuseram a verificar a eficácia e a efetividade da abordagem HAES.

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Dicas de leitura: exame de colesterol, licença para comer ovo

O blog Medicina de Família publicou recentemente dois artigos que certamente interessarão a boa parte dos leitores do Doutor Leonardo:

  • Omelete sem culpa — Um estudo com dados do terceiro National Health and Nutrition Examination Survey não encontrou relação entre o consumo de ovos e o risco de morte por doença isquêmica do miocárdio (infarto e seus amigos) ou doença isquêmica cerebral (AVC).
  • Dosagem seriada de colesterol: há indicação? — Esse artigo fui eu quem escreveu, mas pedi a eles que publicassem porque é voltado para médicos. (Prefiro publicar aqui material que também seja interessante para as pessoas em geral.) Em resumo, dois estudos realizados em contextos diferentes mostraram que a variabilidade dia-a-dia do colesterol é tão grande que, se solicitarmos o exame em intervalos menores que 3 anos, a maior parte da variação de um exame para o outro terá sido por imprecisão, e não por mudanças verdadeiras no metabolismo do colesterol.

Queijo não afeta remédio de pressão

Ontem um jornal do Espírito Santo publicou uma matéria sobre a interferência dos alimentos na eficácia, na segurança e nos efeitos colaterais de alguns medicamentos. É bom que o jornal tenha dado destaque a um tema tão importante, mas a matéria parece ter saído com um erro que está deixando algumas pessoas assustadas. De acordo com o jornal, um gastroenterologista do estado teria dito que consumir queijo com remédios de pressão causaria efeitos colaterais graves, inclusive reação alérgica.

Dezenas de milhares de unidades de queijo parmesão, estocados na fábrica em Modena.

De fato, os queijos (especialmente curados) são ricos em tiramina, uma sustância perigosa para quem toma medicamentos do grupo dos inibidores da monoaminoxidase — iMAO para os íntimos. Os efeitos desta interação medicamentosa vão desde dor de cabeça até crise hipertensiva, sangramento intracraniano e morte. Acontece que os iMAO não são usados para diminuir a pressão arterial — eles são usados para tratar a depressão. Além disso, por causa desse risco, hoje em dia os iMAO são muito pouco usados. Os antidepressivos mais prescritos hoje são os inibidores seletivos da recaptação da serotonina e os tricíclicos; até mesmo os atípicos são mais usados que os iMAO.

O queijo é até bom para controlar a pressão arterial, se for desnatado e tiver pouco sal. Portanto, se o seu médico até hoje não lhe proibiu de comer queijo, não deve haver com o que se preocupar!

Como prevenir um novo cálculo renal

A cada ano, a cólica renal afeta uma em cada 200 pessoas na Europa e nos Estados Unidos. A causa básica são os cálculos renais, que infelizmente são recorrentes: em acompanhamentos por 5 a 10 anos, metade das pessoas voltam a apresentar os sintomas. Por isso, 8 pesquisadores americanos revisaram toda a literatura científica (em inglês) atrás de estudos clínicos de prevenção da recorrência de cálculo renal. O resultado, publicado na revista European Urology, é interessante no sentido de que as medidas mais simples parecem ser as mais eficazes.

Ondas na superfície da água.  É mostrada a perturbação realística (causada por um bastão) e sua expansão formando círculos de interferência aproximadamente concêntricos. A aparência metálica da superfície é resultante do baixo ângulo de iluminação.

A intervenção melhor estudada é a ingestão de água. Foram dois estudos, um recomendando que as pessoas bebessem ao menos 2 litros de água por dia, e outro recomendando a ingestão de água (e outros líquidos) em volume suficiente para urinar pelo menos 2,5 litros por dia. Em resumo, beber muita água e outros líquidos reduz em 61% o risco de voltar a ter cálculo renal. Quem me dera se todos os medicamentos fossem tão baratos e eficazes!

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Ter uma saúde perfeita não é normal

Quase 2 mil norte-americanos de meia-idade responderam a um questionário sobre o quão saudável era seu estilo de vida. O resultado é ainda pior do que se esperava: apenas um, dos 1933 entrevistados, apresentava os 7 componentes de uma vida saudável do ponto de vista cardiovascular (cardíaco e circulatório). Em média, os brancos tinham 2,6 componentes do estilo de vida saudável, enquanto os negros estavam ainda pior, com uma média de apenas 2,0 componentes.

Radiografia de tórax, com o espaço dos pulmões em vermelho.

A pesquisa é melhor entendida no contexto do projeto da American Heart Association: Até 2020, melhorar a saúde cardiovascular de todos os [norte-]americanos em 20%, reduzindo em 20% as mortes cardiovasculares e por derrame. Para fins desse projeto, a saúde cardiovascular (do coração e da circulação) é medida através do cumprimento dos 7 critérios a seguir:

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De onde vem o sal que você consome?

Pesquisadores da USP publicaram, ano passado na Revista de Saúde Pública, um estudo sobre o consumo de sal pela população brasileira. Com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares, realizada pelo IBGE entre 2002 e 2003, a pesquisa apurou que o brasileiro ingere diariamente 11,4 gramas de sal (4,5 gramas de sódio) por dia. Ao destrinchar o consumo de sal pela origem, os pesquisadores descobriram que o sal puro e os temperos à base de sal são responsáveis por 76% do sal consumido pelos brasileiros.

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Redução do sal é tão importante quanto remédio de pressão

Dia 25 de novembro, como já mencionei aqui no Doutor Leonardo, o governo brasileiro divulgou um acordo com a indústria para a redução do teor de sódio (e de glicose) dos produtos alimentícios. A redução deverá ser gradual, para as pessoas não estranharem, e em 2020 os alimentos industrializados do Brasil deverão ter 50% menos sódio que hoje em dia. Esse acordo deverá ter um benefício imenso para a nossa saúde. Não se trata apenas de abaixar a pressão arterial. Trata-se de salvar vidas — muitas vidas.

Neste ano o New England Journal of Medicine publicou um estudo em que os pesquisadores simularam o que aconteceria nos Estados Unidos se aquele país tivesse uma iniciativa igual à do Brasil. Confira um trecho do resumo:

Uma intervenção regulatória desenvolvida para alcançar uma redução da ingestão de sal em 3 gramas por dia salvaria, todo ano, 194 a 392 mil anos de vida ajustados por qualidade de vida, e economizaria todo ano 10 a 24 bilhões de dólares em atenção à saúde. Tal intervenção traria mais economia do que custo, mesmo se apenas uma modesta redução de 1 grama por dia fosse atingida gradualmente entre 2010 e 2019, e seria mais custo-efetiva que usar medicamentos para baixar a pressão sanguínea em todos os hipertensos.

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